'Minha filha merece viver a vida sem esse linchamento moral', acrescenta a mulher, que promete 'não deixar barato' as situações enfrentadas pela estudante

A expulsão da filha do curso de Medicina, revelada pelo blog nesta sexta-feira, não foi bem recebida pela mãe da jovem que, em 2020, matou com um tiro no rosto a adolescente Isabele Guimarães Rosa — as meninas, ambas com 14 anos à época, eram melhores amigas. A universitária, agora impedida de frequentar as aulas pela Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas (SP), sustenta que o disparo foi acidental e passou cerca de 18 meses internada em uma unidade para menores infratores, de onde saiu em junho de 2022.

“Minha filha não deve nada para ninguém. Cumpriu o que foi imposto pela Justiça. Ela merece viver a vida sem esse linchamento moral”, afirmou ao blog a mãe da estudante, hoje com 18 anos, que promete "não deixar barato" a situação vivida pela filha, que já enfrentou outras reações negativas antes da expulsão pela faculdade. Quando ainda morava em Cuiabá, por exemplo, ela foi a um salão de beleza e acabou sendo chamada de “assassina” por uma cliente no momento em que era maquiada para uma festa.

A Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas — Foto: Reprodução

Isabele morreu na casa da amiga, em um condomínio de luxo na capital do Mato Grosso no qual ambas viviam. Em 2021, a autora do disparo foi indiciada pela Polícia Civil por ato infracional análogo a homicídio doloso, com intenção de matar. Mais tarde, porém, após recurso apresentado pelos pais da jovem, a tipificação foi alterada para ato análogo a homicídio culposo, quando não há o intuito da morte, o que permitiu que a jovem ganhasse liberdade antes dos três anos previstos inicialmente.

No domingo de 12 de junho de 2020, a ex-reclusa usou o WhatsApp para convidar Isabele para fazer uma torta de limão. A menina pegou os ingredientes, despediu-se da mãe e seguiu para a outra casa no residencial Alphaville I, onde também morava à época o governador do Mato Grosso, Mauro Mendes.

À esquerda, a universitária expulsa do curso de Medicina, que já venceu competições de tiro; à direita, Isabele Guimarães Rosa (ambas tinham 14 anos à época do crime) — Foto: Fotos de reprodução

Na mesma tarde, o namorado da universitária, então com 16 anos, chegou à mansão com uma case contendo uma pistola de fabricação italiana Tanfoglio, calibre 38, cor preta e sem munição. Toda a família proprietária do imóvel praticava tiros, inclusive a própria adolescente, que já havia vencido várias competições do gênero.

Segundo consta no processo que condenou a estudante ao cumprimento de três anos de medidas socioeducativas, a pistola foi levada naquela data porque o pai dela, um empresário de sucesso, estaria interessado em comprá-la. Havia, contudo, uma outra arma na case: uma pistola Imbel prata calibre 38, também sem balas. O empresário ordenou que a filha de 14 anos levasse as duas armas para o segundo pavimento, onde deveriam ser guardadas em um armário. Sem que ninguém percebesse, porém, o namorado da adolescente municiou a pistola Imbel.

A arma usada no crime — Foto: Reprodução

No segundo andar, ainda de acordo com os autos, a estudante deparou-se com Isabele fumando um cigarro eletrônico escondida. Ela narrou em depoimento que levou um susto com a presença da amiga na porta do banheiro e acabou disparando a arma “sem querer” e à queima-roupa, o que foi classificado por ela na polícia como um “tiro acidental”. A bala atravessou o rosto de Isabele, perfurando a ponta do nariz, e saiu pela nuca, causando morte instantânea.

Posteriormente condenada, e embora tenha alegado tiro acidental, a jovem foi acusada de querer efetuar um "disparo seco", sem munição. Na noite da morte, o namorado dela conversou com o irmão pelo WhatsApp, em diálogo anexado ao processo. O parente perguntou: "Você deixou ela com munição? Fala a verdade". O rapaz respondeu: "Estava no carregador, mas não na câmara", acrescentando em seguida que "a guria morreu".

Patricia Hellen Guimarães Ramos, mãe de Isabele, move uma ação de danos morais no valor de R$ 2 milhões contra a família da jovem que matou sua filha e contra a família do ex-namorado dela, que levou a arma para a casa onde o assassinato se consumou. “Eles nunca vieram me pedir desculpas”, queixa-se a mãe, que também move uma ação de danos materiais para forçar a família da estudante a pagar os R$ 40 mil gastos no funeral de Isabele. O adolescente que levou arma, hoje com 20 anos, foi punido por porte ilegal de arma de fogo.

Conversa entre o namorado da jovem e o irmão no dia da morte — Foto: Reprodução

A recepção na universidade

Depois de deixar o centro para menores infratores e de concluir o Ensino Médio, a jovem prestou vestibular no ano passado e foi aprovada em várias faculdades, entre elas a São Leopoldo Mandic, onde foi matriculada em Medicina ao lado da irmã gêmea. Aos pais, a agora ex-universitária contou que a escolha do curso deu-se justamente por se tratar de um sonho de Isabele, que havia perdido o pai neurocirurgião pouco antes de morrer pelas mãos da melhor amiga. “Já não basta eu ter que morar no mesmo condomínio que a família dela, ainda tenho que ouvir essas coisas”, reagiu a mãe de Isabele, Patricia Ramos, ao tomar ciência do relato.

Nas primeiras semanas de aula na nova universidade, a jovem até passou despercebida. No entanto, às vésperas do carnaval, uma aluna do 5º ano, moradora de Cuiabá, espalhou pela comunidade acadêmica que a caloura havia sido condenada. A partir deste momento, a estudante passou a ser rejeitada pelas colegas de classe. Em uma das situações, chegou para assistir aula e sentou numa das cadeiras. As alunas em volta dela se levantaram do seu lado, em uma demonstração de rejeição.

A decisão da São Leopoldo Mandic pela expulsão ocorreu após o recebimento de uma denúncia sobre o imbróglio, que resultou na abertura de uma sindicância. Nessa apuração interna, foi constatado que a presença da jovem estaria tumultuando a comunidade acadêmica e poderia comprometer a reputação da instituição, além de, no entender da faculdade, não ser compatível com a prática da Medicina.

Isabele tinha 14 anos quando morreu — Foto: Reprodução

Assustado com a presença da recém-chegada junto do restante da turma, um grupo de mães também pressionou a direção a optar pela exclusão. “Essa estudante matou a melhor amiga com um tiro bem no meio do rosto. Quem me garante que ela não vai fazer isso de novo? Não estou nem dormindo direito”, disse ao blog Berta Camillo, cuja filha era da mesma classe que a jovem.

Procurada, a faculdade São Leopoldo Mandic enviou ao blog a seguinte nota:

“Em relação ao caso da aluna ingressante no curso de Medicina, a instituição tomou conhecimento do fato a partir de uma denúncia feita ao comitê de compliance. Foi feita uma apuração e constatado que a presença da aluna gerou um clima interno de grande instabilidade no ambiente acadêmico. Com base no Regimento Interno da Instituição e no Código de Ética do Estudante de Medicina, publicado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), a faculdade São Leopoldo Mandic decidiu pelo desligamento da aluna, assegurando a ela a apresentação de recurso, em atendimento aos princípios do contraditório e ampla defesa”.

O diretor de graduação da faculdade, Guilherme Succi, reforçou que a decisão foi tomada para proteger a tranquilidade do ambiente acadêmico e a segurança de todos os envolvidos. “Todas as ações baseiam-se em questões previstas nas normas internas da Instituição e também no Código de Ética do Estudante de Medicina”, disse.

A São Leopoldo Mandic é uma das faculdades mais caras do país, com mensalidades girando em torno de R$ 13 mil mensais. Succi frisou que a instituição vai devolver os valores pagos pela estudante e que a decisão não se estende à irmã gêmea.


Fonte: O GLOBO