Declaração durante ato de campanha provocou reações da alta cúpula europeia e criou fato político explorado por Joe Biden

Aliados da Otan reagiram com inquietação e preocupação à insinuação do ex-presidente dos EUA Donald Trump, principal candidato do Partido Republicano na disputa pela Casa Branca, de que o país poderia não defender um integrante da aliança militar em caso de ataque estrangeiro, se o aliado não estivesse em dia com suas obrigações de investimentos em Defesa. A fala do candidato repercutiu entre líderes europeus, que convocaram seus vizinhos no continente a se preparar para um cenário de retorno de Trump à Presidência dos EUA.

Trump comentou sobre seus planos para a Otan durante um comício na Carolina do Sul, no sábado. O ex-presidente e candidato em campanha explicou como seria uma conversa entre ele e algum líder europeu, sem especificar quem, de países que fazem parte da aliança, sugerindo que não apenas ignoraria o Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte (que fala sobre a garantia de defesa coletiva do bloco), como poderia até mesmo encorajar a Rússia a atacar um de seus aliados.

— Um dos presidentes de um grande país levantou-se e disse: 'Bem, senhor, se não pagarmos e a Rússia nos atacar, você nos protegerá?' — narrou Trump. — Não, eu não faria isso. Na verdade eu encorajaria [a Rússia] a fazer o que quisesse. Eles [os aliados da Otan] devem pagar as suas dívidas.

As falas de Trump repercutiram entre a cúpula da política europeia, bem como nos EUA. O Alto Representante para a Política Externa e Segurança da União Europeia, Josep Borrell, ironizou a declaração de Trump, afirmando que a Otan não poderia se tornar uma "aliança militar à la carte", sujeita ao estado de espírito do presidente americano. O secretário-geral do grupo, Jens Stoltenberg, fez uma rara acusação pública, dizendo que a declaração minaria a segurança dos países-membro. O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Stéphane Séjourné, conclamou os europeus a se prepararem para "absorver o choque" de um possível retorno do ex-presidente à Casa Branca.

O comentário também ocorre em um momento no qual alertas sobre uma possível ameaça russa à Otan ganham corpo. Há semanas, vários ministros da defesa aliados têm alertado para ações hostis — o último deles, há poucos dias, do ministro da Defesa dinamarquês, Troles Lund Poulsen, que pediu aos cidadãos do país nórdico que se preparassem para uma fase difícil, e estimou que em um período de três a cinco anos Moscou vá testar o Artigo 5º e a defesa coletiva da Otan. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, afirmou em uma entrevista recente que um ataque poderia acontecer em cinco a oito anos.

Embora não esteja realizando nenhuma ação direta contra as fronteiras da Otan neste momento, Moscou acirra sua oposição aos aliados europeus em outras frentes. Nesta terça-feira, o Kremlin anunciou que um mandado de busca havia sido emitido contra a primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas, alvo de um processo criminal no país. O gesto reflete as tensões com os países bálticos, que crescem desde a invasão da Ucrânia — o secretário de Estado da Estônia, Taimar Peterkop, também está sujeito a um mandado de busca, assim como o ministro da Cultura da Lituânia, Simonas Kairys.

Fato político pró-Biden

Apesar das implicações para o ideal de defesa coletiva e para a unidade do bloco, as falas de Trump foram discretamente comemoradas em Washington, pelo candidato a reeleição Joe Biden. Em meio a um turbilhão político e questionamentos sobre sua acuidade mental, o democrata viu o seu principal rival retirar os holofotes dele em um momento de crise.

Analistas foram rápidos em apontar que as declarações de Trump sobre a Otan forneceu à campanha de Biden uma maneira conveniente de reformularem às críticas sobre a idade: de que o presidente pode ser um homem velho que às vezes se esquece das coisas, mas que o seu adversário é ao mesmo tempo idoso e perigosamente imprudente.

A Casa Branca divulgou um comunicado dizendo que “encorajar invasões dos nossos aliados mais próximos por regimes assassinos é terrível e desequilibrado”. Em uma declaração separada divulgada por sua campanha, Biden disse que os comentários de Trump eram “previsíveis vindos de um homem que promete governar como um ditador como aqueles que ele elogia no primeiro dia se retornar ao Salão Oval”. Nas redes sociais, ele se referiu a Trump como um dos “lacaios úteis” do presidente russo, Vladimir Putin.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na Cúpula da Otan em Madri — Foto: AFP

A fala também foi repercutida pela principal adversária de Trump no campo republicano, a ex-embaixadora dos EUA na ONU Nikki Haley. Em entrevista a Fox News, a candidata à Presidência apontou que em vez de projetarem e fortalecerem a candidatura de Trump, suas declarações apenas teriam efeito positivo para Biden.

— Isso é o que você vai conseguir: um caos descontrolado — disse Haley na Fox News. — E isso só faz Joe Biden parecer são. Quando você consegue que Donald Trump faça Joe Biden parecer são, é mais uma razão pela qual Donald Trump não pode derrotar Joe Biden. Eles estão pegando tudo o que ele está dizendo e vão usar isso contra ele. (Com El País, NYT e AFP)


Fonte: O GLOBO