Perfuração com finalidade científica no Acre vai revelar testemunhos da evolução geológica e da biodiversidade única no planeta

Um poço que começou a ser perfurado em meados de junho em Rodrigues Alves, município às margens do rio Juruá, no Acre, vai ajudar a reconstituir a evolução da Amazônia, dona da mais rica biodiversidade do planeta e capaz interferir no regime de chuvas ao lançar na atmosfera, diariamente, 20 bilhões de toneladas de água. 

É num passado que remonta a 65 milhões de anos que um grupo de cientistas de 12 países, incluindo o Brasil, vai buscar parâmetros de como a floresta pode se comportar diante das mudanças climáticas. Na prática, se é capaz de resistir ao aumento da temperatura na superfície da Terra.

A perfuração é similar à dos poços de petróleo, com a diferença que a broca retira a terra em camadas preservadas. Até a última quinta-feira (6/7), foram cavados 499 metros do poço, que terá 2 quilômetros de profundidade. Foram gerados 227 'testemunhos", como são chamadas as amostras cilíndricas das camadas do solo. Acondicionadas em tubos plásticos com até seis metros de comprimento, cada uma delas contará uma parte da história.

É a primeira perfuração feita na Amazônia com finalidade exclusivamente científica e a mais profunda, mesmo se comparada às de exploração mineral já feitas na região. Por isso, o programa é considerado o mais ambicioso até agora para estudar a evolução da Amazônia.

A perfuração científica mais profunda já realizada em terra foi iniciada no fim da década de 80 e terminou em 1995 no Norte da Baviera, na Alemanha. O poço atingiu 9.101 metros e o projeto teve a participação da iniciativa privada. O Centro Alemão de Pesquisa em Geociências utilizou o furo para instalar um observatório sísmico, que funcionou até 2001. A torre, uma das maiores do mundo, permanece no local e se tornou uma atração turística.

Idade da floresta

André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), que coordena o braço brasileiro do Projeto de Perfuração Transamazônica, explica que o principal é determinar a idade da floresta, saber como ela se formou e evoluiu para atingir a biodiversidade que tem hoje.

— Queremos saber por que nessa região tem uma floresta que não existe igual em nenhum outro lugar do mundo. Ela é o ambiente terrestre com maior número de espécies de seres vivos. Como ficou tão diversa? — diz Sawakuchi.

A iniciativa envolve 60 pesquisadores e é patrocinada pelo International Continental Scientific Drilling Program (ICDP), um programa de apoio a projetos de perfuração científica, com sede na Alemanha, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a National Science Foundation (EUA) e o Smithsonian Tropical Research Institute (Panamá).

Os "testemunhos" ficarão depositados na Universidade de Minnesota (EUA), dona de um repositório deste tipo de material. Nos dois primeiros anos, apenas os cientistas do projeto terão acesso a eles. Depois serão abertos a pesquisadores de todo o mundo.

As camadas são formadas por detritos de rochas e plantas. A areia e a lama que foram carreadas para as partes mais baixas, as chamadas bacias sedimentares, contêm componentes biológicos, como microfósseis e pólens, e geológicos, que deverão remontar a história até o começo da era Cenozoica, 65 milhões de anos atrás.

— Vamos entender como era a Amazônia antes da população humana. Se ela demorou tanto tempo para se formar, se for perdida não será restaurada de uma hora para outra — afirma Sawakuchi.

Francisco Negri, professor do Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal do Acre, que atua há cerca de 20 anos na região e é um dos integrantes do grupo, conta que as características da maior floresta tropical do mundo começaram a ser moldadas com o soerguimento da Cordilheira dos Andes, há 23 milhões de anos.

Os cientistas acreditam que, além de mudar a topografia na borda oeste da Amazônia, a cadeia montanhosa bloqueou os rios, que até então desaguavam no Oceano Pacífico e no Caribe, a Oeste.

A água acumulada formou inicialmente um lago gigante, que se transformou num enorme pântano. Em seguida, os cursos dos rios mudaram para Leste, tal como são hoje.

Neste processo de drenagem teria surgido o Rio Amazonas, o maior do mundo, cuja vazão em alguns trechos, avaliados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), chega a 200 mil metros cúbicos por segundo, volume suficiente para encher a Baía da Guanabara em três minutos e meio.

No processo de evolução a Amazônia teve fases de junção e fragmentação, onde foram criados habitats isolados uns dos outros, recortados por rios e montanhas. Cientistas acreditam que este mosaico pode ser a origem da enorme biodiversidade.

Jacarés e tartarugas gigantes

Negri lembra ainda que quando a América do Sul, depois de 70 milhões de anos isolada, se uniu à América do Norte, por meio da América Central, teria ocorrido a migração de espécies em direção ao Sul, aumentando ainda mais a diversidade de vida na região Amazônica.

Achados fósseis, diz o professor, mostram que a Amazônia já abrigou jacarés gigantes, de 15 metros de comprimento, tartarugas com mais de 2 metros de carapaça, e grandes roedores que acabaram extintos. Dentes de tubarão e fósseis de arraias, por exemplo, indicam até mesmo que ali já houve água salgada em algum momento.

Fósseis aflorados em barrancas de rios durante períodos de seca e perfurações da Petrobras, segundo Negri, contribuíram para revelar o que se sabe do passado da Amazônia até hoje. Coube a um geólogo da Petrobras, Jorge Figueiredo, hoje professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o estudo que indica o surgimento do Rio Amazonas, há 11 milhões de anos.

Segundo Negri, o Acre foi escolhido para o primeiro poço por abrigar a parte mais profunda da Bacia Sedimentar. A segunda perfuração, que será feita tão logo acabe a primeira, prevista para terminar em três meses, terá 1.200 metros de profundidade e será no município de Bagre, no Pará, numa ilha fluvial no enorme emaranhado de cursos d’água entre a foz do Rio Amazonas e a do Rio Tocantins.

— A ideia é ver os pulsos gerados por mudanças climáticas e geológicas e o que levou a floresta a avançar sobre as áreas mais secas. Conseguiremos reconstituir como essas alterações influenciaram a fauna, a flora e estruturação da Bacia Amazônica como um todo — diz o professor.

A ciência procura resposta também para problemas presentes, como as queimadas. Por meio de sequenciamento genético de Collembolas, pequenos artrópodes responsáveis pela decomposição de vegetação morta, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), em parceria com o ICMBio, órgão governamental que administra as unidades de conservação federais, procura determinar o efeito de queimadas na saúde ecológica do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso.

— É preciso saber quanto e por quanto tempo o fogo impacta a flora e a fauna — diz o biólogo Pedro Miguel da Costa Pedro.

Segundo ele, collembolas são bioindicadores de qualidade do solo. Antes do sequenciamento do DNA, era preciso capturar os bichinhos e submetê-los a análises microscópicas, feitas por experts em identificação das espécies. Com o barateamento da bioinformática, o trabalho ficou mais fácil.

Agora, pequenos tubos espalhados pelo parque acumulam material orgânico e o sequenciamento genético dele é que vai determinar e comparar a quantidade de espécies de Collembolas presentes nas áreas saudáveis e nas partes queimadas. Quando mais espécies, melhor para o ecossistema.

— O uso da tecnologia molecular permite obter respostas mais rápidas. A ideia é desenvolver protocolos de coleta em campo que sejam simples e acessíveis à sociedade para buscar as respostas sobre os impactos causados ao meio ambiente — diz Pedro.


Fonte: O GLOBO