Ex-presidente alega que então chefe da CGU pediu autorização para derrubar restrição de cem anos ao seu histórico de imunização, mas não explica por que

No depoimento que prestou à Polícia Federal na última terça-feira (16) sobre as suspeitas de fraudes em comprovantes de vacinação do SUS, o ex-presidente Jair Bolsonaro relatou pela primeira vez ter sido procurado pelo então ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, para pedir autorização para retirar o sigilo de cem anos imposto ao seu cartão de imunização.

De acordo com o termo de declarações do depoimento, obtido pela equipe da coluna, Bolsonaro disse ter recebido uma ligação de Rosário no dia 29 de dezembro de 2022 para tratar do assunto – na véspera da viagem para seu autoexílio nos Estados Unidos e a três dias da posse de Lula.

Na época, a CGU se preparava para a chegada de Lula e descobriu, ao revisar o cartão de vacinação do presidente no ConecteSUS, que havia um registro de que o presidente tinha sido vacinado em São Paulo, no bairro do Peruche, no dia 19 de julho de 2021.

De acordo com o ex-presidente, o então ministro da CGU teria o informado sobre a existência de pedidos de Lei de Acesso à Informação (LAI) requisitando a divulgação de seu cartão de vacinação.

Bolsonaro, que reiterou diversas vezes ao longo do depoimento não ter se vacinado contra a Covid-19, não só disse à PF ter concordado com a liberação do cartão como também afirmou ter orientado Wagner Rosário a proceder com “a investigação pertinente” caso houvesse “alguma coisa errada” no seu documento.

A versão do ex-presidente, porém, é cheia de lacunas.

Apesar de dizer que orientou Rosário a apurar eventuais inconsistências no cartão de vacinação de forma espontânea, o próprio Bolsonaro sustenta, na sequência, que não sabia da inserção de falsos registros de vacinação em seu cartão do SUS naquela ocasião. Além disso, o documento não foi disponibilizado apesar da sua suposta autorização.

No dia seguinte, 30 de dezembro, o então chefe da CGU abriu uma investigação para apurar exatamente a inclusão dos dados forjados. Ele avisou seu sucessor no cargo, Vinicius Carvalho, que tomou posse no dia 1º de janeiro.

Bolsonaro, porém, disse que só soube do registro falso de vacinação feito em nome dele em São Paulo quando a CGU de Lula tornou pública a investigação aberta no final de seu governo.

Só então, em resposta às cobranças pela divulgação do cartão do ex-presidente, foi que a CGU informou que apurava se hackers haviam incluído doses de vacinas no documento, acrescentando que só depois da conclusão da investigação é que avaliaria se o cartão de vacinação seria ou não tornado público.

Bolsonaro, entretanto, afirmou à polícia que a investigação sobre as inconsistências começou ainda em seu mandato e que elas foram comunicadas à Polícia Federal pela CGU, sem explicar como tomou conhecimento desse fato.

Os registros fraudulentos feitos em Duque de Caxias (RJ) só se tornaram públicos no último dia 3, com a Operação Venire. No depoimento, o ex-mandatário também disse que não foi informado desses registros naquela época.

Apenas após a deflagração da operação da PF seria revelado que as inconsistências detectadas pela controladoria eram indícios de um esquema fraudulento tocado de dentro do Palácio do Planalto que forjou comprovantes de vacinação de Bolsonaro, sua filha, Laura, do então ajudante de ordens, Mauro Cid, e outros aliados do ex-presidente.

O sigilo de cem anos sobre o cartão de imunização de Jair Bolsonaro foi decretado pelo Planalto em 8 de janeiro de 2021, nove dias antes da primeira vacina contra a Covid-19 ser aplicada no país, justamente após um pedido de Lei de Acesso à Informação solicitar o documento.

O que o ex-presidente não explicou à PF no depoimento de terça-feira é por que resolveu de bom grado abrir mão do sigilo imposto pelo seu próprio governo com base em outros pedidos de LAI se, no passado, se recusou a fazê-lo. Também não esclareceu de que forma intuiu, supostamente, que haveria “coisas erradas” no cartão de vacinação.

A narrativa não fica de pé, mas talvez seja a única possível diante de tantas inconsistências.


Fonte: O GLOBO