Familiares em busca de respostas deram uma amostra da pressão que o novo governo enfrentará lançando campanha para que votos nulos homenageassem pessoas não localizadas pelas autoridades

Entre os milhões de eleitores mexicanos que foram às urnas no último domingo, um grupo — já decidido a anular seu voto — aproveitou a ocasião para enviar um recado: lembrar dos mais de 110 mil desaparecidos no país. 

Em vez de marcar o nome de Claudia Sheinbaum, eleita a primeira mulher presidente da História do México, ou de sua rival, Xóchtil Gálvez, eles usaram o espaço em branco da cédula, destinado para candidatos não registrados, para homenagear entes queridos que sumiram. As suas histórias estão por trás de uma das principais crises que a nova governante deverá enfrentar ao longo do mandato.

— Eu votei por Yureny, por Pilar, por Carmen e todas as tantas pessoas que desapareceram — disse Victoria Delgadillo, que desde 2011 procura por sua filha Yureny Hernández, que sumiu aos 26 anos, em entrevista à Associated Press durante a votação. — Votem em quem quiserem. Nós, mães de desaparecidos, vamos ter que trabalhar com quem quer que reste [na Presidência].

Crescimento exponencial

Desde 2006, quando o México convocou o Exército para ajudar a polícia no enfrentamento ao crime organizado, o país vê o número de pessoas desaparecidas crescer ano após ano. Se antes disso havia cerca de 10 mil desaparecimentos contabilizados ao longo de cinco décadas, de lá para cá — ou seja, em apenas 18 anos – mais de 100 mil foram registrados. Em 2023, a nação latino-americana atingiu seu recorde histórico, com 10 mil desaparecimentos somente em um ano.

O estado de Jalisco lidera o ranking de casos — uma evidência da relação intrínseca entre a crise de desaparecimentos e o controle cada vez maior do crime organizado sob territórios do país. No local opera o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), considerado o mais violento do México e o segundo mais poderoso, atrás apenas do Cartel de Sinaloa.

— Quando você analisa a tendência ao longo do tempo, é alarmante — afirma ao GLOBO a pesquisadora mexicana especialista em gênero do Crisis Group. — Cerca de 70% das pessoas que desaparecem são homens, mas isso não significa que não há uma crise entre mulheres e meninas também. E os motivos que explicam o desaparecimento delas é diferente dos dos homens.

No caso das mulheres, os sintomas dessa crise afetam particularmente meninas entre 10 e 19 anos, vítimas mais vulneráveis das organizações criminosas que atuam no país. Além da comercialização de drogas ilícitas, os carteis também costumam operar redes de tráfico de pessoas e contrabando de migrantes no México, um dos principais destinos de pessoas que tentam chegar aos EUA. Geralmente, as jovens que acabam nas mãos dessas gangues são forçadas ao trabalho sexual e outras formas de exploração.

Madres buscadoras

A pressão das famílias em busca de respostas levou à formulação da Lei Geral sobre Desaparecimentos no final de 2017, que criou a Comissão Nacional de Busca de Pessoas e estabeleceu diretrizes para a condução das investigações. Em 2018, primeiro ano de mandato do atual presidente, Andrés Manuel López Obrador, padrinho político de Sheinbaum, o seu governo afirmou que a agenda seria uma de suas prioridades. Sheinbaum reforçou a necessidade de enfrentar a questão durante sua campanha.

No entanto, os familiares de desaparecidos denunciam um estado de impunidade e inação sistemático. Por isso, muitos deles, sobretudo as mães, começaram a se organizar coletivamente para descobrir o paradeiro de seus entes queridos e pressionar as autoridades. A mobilização delas, que ficaram conhecidas como "madres buscadoras", é hoje um dos principais movimentos de mulheres no México.

— Essas são mulheres que se mobilizam coletivamente apesar do medo, da insegurança e do estigma que enfrentaram — destaca Gema Kloppe-Santamaría, socióloga e historiadora especialista em violência, crime e gênero no México. — Elas suportam a estigmatização da sociedade e da opinião pública (que sugere que os desaparecidos estavam envolvidos em algo), enfrentam a impunidade e a desconsideração do sistema de justiça e segurança, e até mesmo acusações do presidente [López Obrador] de que elas estão com a oposição ou inflando os números de desaparecimentos.

Desde 2019, coletivos de buscadoras já conseguiram encontrar 1,2 mil pessoas desaparecidas que estavam enterradas em covas clandestinas. Outras 1,3 mil foram localizadas com vida, em diferentes partes do México, e muitas relatam terem sido sequestradas quando tentavam cruzar a fronteira com os EUA.

Mas a jornada de mães e pais em busca de respostas também pode ser perigosa. Em 2022, cinco buscadoras conhecidas pelo seu ativismo foram assassinadas no país.


Fonte: O GLOBO