Apoio a candidaturas femininas e agenda em diferentes regiões do país: saiba como ambas vão atuar para a campanha

Na tentativa de impulsionar o número de prefeituras conquistadas em outubro, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, e Michelle Bolsonaro começaram a definir as estratégias de atuação para a eleição municipal. 

A mulher do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai priorizar capitais em que o PT estará representado por candidaturas femininas e áreas em que sua presença é vista como capaz de quebrar resistências entre evangélicos. A ex-primeira-dama, por sua vez, começou na última sexta-feira um roteiro pelo Nordeste, região mais refratária ao bolsonarismo, e também vai intensificar agendas ao lado do marido, Jair Bolsonaro, e de nomes do PL.

O PT enxerga Porto Alegre, Natal, Campo Grande e Goiânia como municípios em que o empenho de Janja pode ser decisivo — nestas cidades, a sigla já definiu que lançará candidaturas femininas. Janja vai integrar a construção dos planos e participar das campanhas, com presença em palanques e nas redes sociais. Em São Paulo, onde Lula atua pessoalmente para reforçar a pré-candidatura de Guilherme Boulos (PSOL), a primeira-dama vai se dedicar a ações ao lado de Marta Suplicy, que vai compor a chapa como vice.

Em um jantar no Palácio da Alvorada que reuniu Lula, Janja e parlamentares no fim de março, foram discutidos os caminhos para o pleito municipal. O presidente pediu, além do foco nos mais pobres, um olhar atento para setores médios da sociedade. A ideia é tentar conversar com esses segmentos que já possuem renda, mas ainda buscam outras melhorias de vida.

— Eu e a ministra (das Mulheres) Cida (Gonçalves) vamos andar pelo Brasil para levar à eleição de mulheres — disse Janja no mês passado, em evento do PT.

Com o alerta ligado após as pesquisas identificarem a queda de popularidade de Lula, a intenção é também promover uma aproximação em cidades ainda adversas à gestão petista. Pré-candidata do PSOL à prefeitura de Niterói, a deputada federal Talíria Petrone deve ter apoio explícito da primeira-dama, se for confirmada na disputa. Por ter forte presença bolsonarista e evangélica, municípios do Estado do Rio são considerados prioritários na estratégia.

— A ideia é que Janja ajude a aglutinar eleitorado do presidente Lula. As ações dependem do perfil da cidade: um comício em Natal pode agregar mais, enquanto em Campo Grande poderá ser uma caminhada em regiões onde Lula tem mais apoio. Nem todo eleitorado bolsonarista compõe essa parcela mais ligada à extrema-direita. É preciso voltar a dialogar com pessoas que votaram em Bolsonaro e mostrar ações que desenvolvemos, como no agronegócio — afirma a deputada federal Camila Jara (PT-MS), pré-candidata à prefeitura de Campo Grande.

Em Porto Alegre, a deputada federal Maria do Rosário, pré-candidata do PT, convidará Janja para agendas presenciais. Nome do PT em Goiânia, a deputada federal Adriana Accorsi lembra que nunca uma mulher foi para o segundo turno na cidade e quer usar as imagens de Lula e Janja para ganhar tração.

Em paralelo, a primeira-dama também tem investido em agendas solo no governo. Na segunda-feira, participou de uma reunião com a diretora da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil, Marlova Noleto. As duas trataram do projeto que prevê acelerar a reconstrução do acervo do Museu Nacional e a reinauguração do espaço e também conversaram sobre a realização de um evento internacional para tratar do combate à desinformação, misoginia e discurso de ódio nas redes sociais.

No dia seguinte, Janja foi ao Rio para um encontro no BNDES com o presidente da instituição, Aloízio Mercadante, e a diretora socioambiental, Tereza Campello. A cúpula do banco apresentou a ela editais voltados para a Amazônia, como o que destina R$ 336 milhões para a agricultura familiar e alimentação escolar.

Investimento no Nordeste

No campo político oposto, Michelle, que preside o PL Mulher, intensificou a rotina de viagens e vem opinando diretamente sobre os nomes que o partido vai lançar em outubro. Na sexta, ela viajou com Bolsonaro a Maceió, onde o casal apoia a reeleição do prefeito João Henrique Caldas (JHC). Na capital alagoana, ela recebeu o título de cidadã honorária da cidade. Bolsonaro a acompanhou na visita. Os dois atrelaram suas imagens ao prefeito e viram eleitores de Bolsonaro promoverem uma motociata pelas ruas da capital.

No sábado, Michelle foi anfitriã do evento do PL Mulher em Alagoas. O roteiro dela pelo Nordeste ainda prevê passagens por Maranhão e Sergipe. Também terá irá à Região Norte, com visitas ao Amazonas, Amapá. No Centro Oeste, irá a Tocantins.

Michelle também tem atuado na disputa no Rio, onde defende uma chapa "puro-sangue" do PL, com os deputados federais Alexandre Ramagem (concorrendo a prefeito) e Chris Tonietto (como vice) — a parlamentar se identifica como "pró-vida" e "pró-família".

Michelle também é ouvida quanto a uma possível indicação do PL para vice de Ricardo Nunes em São Paulo, em um aumento de participação política que mira também 2026, quando deve ser candidata ao Senado pelo Distrito Federal.

O PL Mulher tem um orçamento mensal em torno de R$ 800 mil, o equivalente a 5% do fundo partidário da legenda — parte deste valor é distribuído para diretórios comandados por mulheres com o aval da ex-primeira-dama. Na disputa contra Lula em 2022, pesquisas de intenção de voto indicavam uma maior resistência do público feminino com Bolsonaro, tendência que o PL tenta quebrar por meio da imagem da ex-primeira-dama.

— A agenda da Michelle é contínua. Ela traz filiadas e leva a nossa bandeira por onde passa. O itinerário de viagens pode mudar de acordo com os interesses do partido, é claro, mas ela tem autonomia completa para traçar a própria agenda de compromissos. Confiamos nela para ser o partido com o maior número de vereadoras no Brasil — diz o líder do PL na Câmara, Altineu Côrtes (RJ).


Fonte: O GLOBO