Estudo mostra que escolas com mais alunos negros têm piores estruturas do que as que atendem majoritariamente estudantes brancos

Escolas que atendem majoritariamente estudantes brancos têm infraestrutura muito melhor do que aquelas onde estudam, em sua maioria, negros. A constatação, infelizmente pouco surpreendente, é de um estudo divulgado na semana passada pelo Observatório da Branquitude, a partir de dados do Censo Escolar do MEC. Apenas para citar um dado do levantamento, em 75% dos estabelecimentos onde mais de 60% dos alunos são brancos há laboratório de informática, ante 47% do registrado em colégios com 60% ou mais de negros.

A desigualdade racial no Brasil tem raízes históricas, e há um conjunto de fatores que, somados ao racismo, contribuem para isso. Escolas predominantemente brancas tendem a estar localizadas em regiões mais desenvolvidas e atendem, em maior proporção, famílias de maior nível socioeconômico. Como a escolaridade e renda dos pais é o fator de maior impacto no desempenho em testes, cria-se um círculo vicioso. 

Como a pobreza no Brasil segue majoritariamente negra, essas crianças herdam uma desvantagem que nada tem a ver com seu esforço ou mérito. Para corrigir isso, precisaríamos compensar essa injusta desigualdade de berço oferecendo melhores condições educacionais aos estudantes que mais precisam. Mas, como essa e outras pesquisas comprovam, não só estamos longe disso, como fazemos o oposto.

Diante dessas desigualdades no ponto de partida e no acesso diferenciado a oportunidades educacionais, não surpreende que os resultados de aprendizagem sejam tão distintos. E o pior é constatar que, em muitos indicadores, não há ainda sinal de que a distância esteja diminuindo. Um estudo dos pesquisadores Julia Walter e Thomas Kang, publicado no ano passado no Observatório da Produtividade Regis Bonelli (FGV-RJ), compara, entre outras variáveis, a média de anos de estudos entre brancos, pretos e pardos desde 1925 no Brasil. Todos os grupos avançam, mas a distância entre brancos e negros fica praticamente inalterada em 90 anos da série histórica analisada.

Se a população branca chegou à média de quatro anos de estudos no início dos anos 70, para pretos e pardos, esse limite foi ultrapassado apenas nos anos 90. Brancos alcançaram oito anos de estudo logo no início deste século, enquanto negros superaram essa marca apenas uma década depois. A última Pnad do IBGE, referente a 2023, mostra que a média de escolaridade entre brancos é de 10,8 anos, frente a 9,2 entre pretos e pardos.

Mas há avanços em alguns indicadores. Em estudo publicado no ano passado no International Journal of Educational Development, Lara Simielli (FGV-SP) identificou que em 2001 a chance de um estudante preto ou pardo do 5º ano do fundamental e de baixo nível socioeconômico ter um professor com nível superior completo era de apenas 26% ou 25%, respectivamente, ante 83% do registrado entre brancos de alta renda e escolaridade dos pais. Em 2017, essas proporções chegaram a 89% e 91%, bem próximas dos 95% verificados para brancos de alto nível socioeconômico. Essa distância foi quase zerada nesse quesito, mas, no caso do acesso a professores mais experientes, o estudo mostra que ela segue relevante.

Também podemos citar políticas públicas, como as cotas e o Fundeb, que de alguma maneira contribuíram para diminuir a desigualdade no acesso ao ensino superior ou no financiamento da educação básica. Há, portanto, avanços em algumas áreas, mas são insuficientes. Sem políticas públicas mais contundentes e focalizadas, seguiremos distantes da meta de, ao menos, igualar oportunidades para todos os grupos.


Fonte: O GLOBO