Legendas da base, como PSB, PDT e MDB, veem imposição como erro e preferem separar as campanhas municipais e gerais

O PT defende que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só esteja nos palanques de candidatos a prefeito cujos partidos tenham declarado apoio à campanha do chefe do Executivo à reeleição em 2026. A decisão provocou críticas em legendas da base, que veem a imposição como um equívoco e preferem separar os dois momentos eleitorais, de olho também em interesses locais. Neste grupo estão siglas como PSB, PDT e MDB que vislumbram a presença ativa do petista em campanhas nas capitais.

A normativa do PT foi incluída na Resolução do Diretório Nacional da sigla sobre as eleições municipais em 2024. O texto define o pleito como um “momento estratégico para a construção de uma sólida aliança popular e democrática que promova a recondução do governo Lula em 2026”. Na avaliação da cúpula do partido, a disputa de 2024 é fundamental para consolidar apoios para a reeleição de Lula.

Corrida por apoio mirando eleições de 2026 — Foto: Editoria de Arte

Partidos aliados do Planalto, no entanto, apontam que essa postura pode gerar constrangimento e acabar tendo efeito contrário. Integrantes do PSB, principal aliado na campanha de 2022, avaliam que é um equívoco impor esse critério, especialmente pelas eleições municipais de 2024 se darem em contexto diferente da corrida presidencial.

— Não acho que essa imposição seja boa. O Brasil é gigante e com cidades enormes, realidades políticas muito distintas. Esse tipo de radicalismo não é saudável para o que a gente está querendo construir para consolidar uma ampliação de base do presidente Lula — disse o deputado federal Felipe Carreras (PSB-PE).

Além de ter a vice-presidência, com Geraldo Alckmin, a sigla ocupa dois ministérios — Indústria e Comércio, com o próprio Alckmin; e Empreendedorismo, Micro e Pequena Empresa, que tem Márcio França à frente.

‘Pedido não funciona’

O ministro do Trabalho e presidente licenciado do PDT, Carlos Lupi, também acredita que esse tipo de pedido não funciona, por serem eleições distintas. Contam na disputa local debates específicos do município, como escolas, água e asfalto, aponta o ministro. A legenda espera apoio de Lula nas duas cidades que são prioritárias para o PDT: Fortaleza, com a reeleição de José Sarto; e Aracaju, na sucessão de Edvaldo Nogueira.

— Não combina amarrar uma coisa com a outra. Tem muita complexidade para se definir na eleição municipal. A aliança que hoje está no governo é muito ampla, não dá para definir 2026 com essa antecedência. Vamos pedir a ele (Lula) que suba em alguns palanques, e em outros vamos pedir neutralidade — disse Lupi.

Há possibilidade de atrito ainda em São Luís, onde ao menos dois candidatos da base devem pleitear o apoio de Lula: o prefeito Eduardo Braide (PSD) e o deputado Duarte Júnior (PSB). No caso de Braide, é improvável que o PSD, que integra gestões aliadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como no caso de São Paulo, com Tarcísio de Freitas, declare já apoio à reeleição de Lula.

O MDB, por sua vez, quer apoio de Lula em Maceió, onde fará prévias para definir o candidato. Líder do MDB da Câmara, o deputado federal Isnaldo Bulhões Jr. (AL) afirma que o critério exigido pelo PT é difícil de funcionar no país inteiro. O parlamentar argumenta que as alianças municipais também são influenciadas pelos perfis das bancadas em cada estado e as coligações com governadores:

— A equação não é do PT, é da política, complicada de pôr em prática. Processo de apoio ao presidente é outra construção.

Em outra eleição que interessa ao MDB, a de Salvador, o senador Otto Alencar (PSD-BA) avalia que o compromisso poderá ser cumprido sem dificuldade. Lula já manifestou apoio ao vice-governador Geraldo Junior (MDB) para disputar a capital baiana — o pré-candidato também será apoiado pelo PSD.

— Na Bahia, temos uma lealdade muito grande ao presidente desde 2010. Não vejo dificuldade de estarmos juntos em 2026 — adiantou Otto.

No PSOL, em que já há aliança com o PT para tentar eleger Boulos em São Paulo, a condição do partido do presidente já é vista como alternativa para enfrentar o bolsonarismo em 2026:

— Nosso campo político se consolidou com o enfrentamento ao governo Bolsonaro, se a conjuntura tiver parecida em 2026, e a tendência é ela se consolidar, a unidade é fundamental nesse cenário de polarização, nós vamos precisar repetir a aliança da nossa vitória eleitoral por mais 4 anos — disse a presidente do PSOL, Paula Coradi.

Retomada de espaço

Ao longo das próximas semanas, o PT vai definir os palanques aos quais Lula se dedicará prioritariamente. O presidente definiu como prioridade a candidatura do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) à prefeitura de São Paulo e tem se empenhado pessoalmente na construção da chapa, convidando Marta Suplicy para voltar ao PT e ser a vice. A interlocutores, a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, tem afirmado que se a sigla ganhar o pleito em São Paulo com Boulos, terá vencido as eleições municipais no país.

A legenda tenta se recuperar do tombo sofrido em 2020, quando não elegeu prefeito em nenhuma capital, perdeu 71 prefeituras e venceu em 183, pior desempenho desde 2000.

Dentro do partido, há a leitura de que Lula deve priorizar cidades onde haverá polarização na disputa e embate direto com o bolsonarismo. O foco do partido é costurar alianças de centro-esquerda, com PSB, PDT, PSOL e PV. No Nordeste, a legenda também quer avançar atraindo siglas de centro, como PSD e MDB.

O partido do presidente quer puxar para si a decisão de onde ele vai depositar mais esforços, fazendo essas costuras de modo que as legendas da base não interfiram nas agendas que Lula fará e sem que isso traga reflexos negativos para o governo em votações do Congresso.


Fonte: O GLOBO