Tenista de 18 anos fala em conciliar juventude com a vida de atleta e mira os Jogos de Paris

Dois anos atrás, o espanhol Carlos Alcaraz desembarcou na Cidade Maravilhosa para conquistar, aos 18 anos, o Rio Open, primeiro título de ATP 500 de sua carreira. Foi como um trampolim: depois do torneio, ele partiu para voos mais altos, com a vitória em dois Grand Slams e a chegada a número 1 do ranking mundial. Neste ano, especial por marcar a décima edição do principal evento de tênis da América do Sul, outro prodígio pretende usar as quadras do Jockey como plataforma pessoal: Arthur Fils.

O francês de 19 anos tem hoje um currículo semelhante ao de Carlitos à época — sua principal conquista é um ATP 250, em Lyon, em maio do ano passado. Mas o hype é um tanto diferente. Enquanto o espanhol desde cedo, para o bem e o mal, convivia com o rótulo de novo Nadal, o francês é uma figura mais discreta. 

Prova disso é que, na última sexta-feira, quando, acompanhado de sua entourage, visitou o Cristo Redentor, foi pouco incomodado para pedidos de fotos. Em vez disso, era comum ouvir turistas, até mesmo os franceses, perguntarem à reportagem do GLOBO: quem é ele?

Sonho olímpico

Embora pretenda impressionar os brasileiros de forma imediata — sua estreia no Rio Open será contra o carioca João Fonseca, em partida ainda a ser marcada —, Fils terá a oportunidade ideal para conquistar os corações de seus compatriotas em pouco mais de cinco meses, na Olimpíada de Paris.

Tenista francês faz sua estreia no Rio Open — Foto: Beatriz Orle

Número 36 do mundo hoje, ele está dentro da “nota de corte” para se classificar aos Jogos: os 56 primeiros do ranking da ATP no dia 10 de junho, ou seja, logo após Roland Garros, entrarão na chave, com o limite de quatro atletas por país. Fils é o terceiro melhor francês, atrás de Ugo Humbert, que aos 25 anos vive um bom momento, e do experiente Adrian Mannarino, de 35.

O desejo de fazer bonito na própria casa está por trás da decisão de Fils de participar da gira sul-americana de saibro, em um momento em que boa parte dos tenistas se concentra na quadra dura, com Indian Wells e Miami no horizonte, já em março:

— Esse é um dos motivos sim. Os Jogos Olímpicos serão no saibro, o que é incrível, e estamos aqui para jogar mais tempo nesse piso antes de Roland Garros — diz o francês, também confirmado no 250 de Santiago, no Chile, na semana que vem, e no 250 de Estoril, em Portugal, em abril.

A jornada de Fils pelo saibro não começou como esperado. Em Buenos Aires, na semana passada, ele foi derrotado pelo sérvio Dusan Lajovic, 58º do ranking, em sets diretos logo na estreia. O Rio Open, portanto, aparece como a chance de decolar. 

E ele conta com um especialista. O francês é treinado pelo espanhol Sergi Bruguera, bicampeão de Roland Garros em 1993 e 1994, e figura bem conhecida dos brasileiros amantes do tênis. Foi adversário de Gustavo Kuerten na final do seu primeiro título no piso parisiense, em 1997.

— Fiquei satisfeito com o meu desempenho no saibro no ano passado, mas, neste, só joguei uma vez e perdi. Preciso ver como irei nos torneios até Paris — pondera Fils, cauteloso com as oscilações de desempenho. 

— O tênis é um esporte complicado. Perdemos quase toda semana. Pode ser que, no Rio, eu perca na primeira rodada de novo e, em Santiago, seja campeão. É o tênis. Eu me dedico a todas as partidas. Se ganhar, ótimo. Se perder, ótimo também, porque eu aprendo e levo isso para o torneio seguinte.

O atleta foca no saibro — Foto: Beatriz Orle

Juventude e vida de atleta em alto nível


Fils demonstra a resiliência de quem está envolvido com vitórias e derrotas desde os 5 anos, quando deu os primeiros passos no tênis num clube local. Lá e hoje, ao seu lado, a presença constante do pai Jean-Philippe, ex-jogador de basquete.

Ele é o porto seguro de um jovem que aceita as imposições da vida de um atleta de alto nível e que nem sempre combinam com os hormônios da juventude.

—Não é fácil. Eu adoraria ter mais tempo com meus amigos em Paris, mas é o que há. Ao menos, eles entendem, minha família também. As pessoas importantes para mim entendem. Quando estou em Paris, eu os vejo, e às vezes eles me acompanham nos torneios. A gente dá um jeito.

O francês Arthur Fils — Foto: Beatriz Orle

Enquanto busca seu lugar ao sol no ranking mundial — nenhum francês chegou à liderança na era moderna do jogo —, Fils se inspira em outro esporte em que a França tem muito mais sucesso. O tenista se orgulha a ponto de dizer, no considerado país do futebol, que sua seleção é melhor que a brasileira. E que eles também têm um dos melhores jogadores do mundo.

— Se falamos de antes, o Brasil (é superior), com Ronaldo e Ronaldinho. Agora, a França, com Mbappé e tudo mais — garante Fils, que apenas deu um sorriso ao ser questionado quem era melhor, Mbappé ou Neymar.


Fonte: O GLOBO