Presidente ucraniano, que está nesta quarta na cúpula em Vilna, esperava ter em mãos um plano para a adesão na aliança militar, mas teve suas expectativas frustradas

Os países do Grupo dos Sete (G7), alguns dos mais industrializados do mundo e espinha dorsal do apoio Ocidental à Ucrânia, vão anunciar nesta quarta-feira compromissos de longo prazo para ajudar Kiev em sua resistência, durante o último dia da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Vilna, na Lituânia. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, contudo, disse que a promessa não substitui a adesão de seu país à aliança militar encabeçada por Washington.

O plano de Zelensky, que tem uma agenda extensa de reuniões com os principais chefes de governo do G7 nesta quarta em Vilna, era sair da cúpula com uma rota acelerada de ingresso na aliança militar, criada no fim da Segunda Guerra Mundial para conter o avanço da influência soviética em direção ao Ocidente. Os aliados, contudo, optaram por não definir o cronograma.

— Os Estados Unidos, juntamente com líderes do Grupo dos Sete, anunciarão nossa intenção de ajudar a Ucrânia a construir Forças Armadas que possam se defender e conter um ataque futuro — disse à imprensa Amanda Sloat, diretora para Europa no Conselho de Segurança Nacional americano.

A declaração do encontro, afirmou ela, "enviará um importante sinal à Rússia de que o tempo não joga a seu favor". A ideia é mostrar que Moscou deve abandonar a ilusão de que o apoio a Kiev eventualmente perderá fôlego, conforme a guerra se prolonga, as atenções se dissipam e a fadiga começa a ofuscar o interesse.

A promessa deve ser de um marco em que cada país posteriormente adotará acordos bilaterais para detalhar quais armas serão entregues. Também deve prever maior compartilhamento de inteligência, ajuda com ameaças híbridas e cibernéticas, treinamentos militares e auxílio para alavancar a indústria, afirma um comunicado britânico.

O presidente Joe Biden, que terá com Zelensky uma reunião nas próximas horas, propôs um modelo similar ao que Washington tem com Israel, com quem tem um compromisso de investir US$ 3,8 bilhões de segurança em ajuda militar ao longo de uma década.

O anúncio veio um dia após os 31 países-membros da Otan emitirem um comunicado afirmando que "o futuro da Ucrânia está no Otan", mas que o ingresso só ocorrerá quando "os aliados concordarem e as condições forem cumpridas".

De acordo com o documento, as condições mencionadas incluem avaliações regulares, por representantes da Otan, de critérios relacionados a compromissos democráticos e integração militar com o bloco. Antes mesmo da divulgação do documento, o tom desagradou Zelensky, que chamou o posicionamento de "absurdo" pois só incentivaria a Rússia a continuar suas agressões.

Em uma entrevista coletiva ao lado do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, em Vilna, Zelensky disse na terça-feira que as promessas do G7 não devem substituir o ingresso na aliança militar encabeçada pelos EUA, "mas sim como garantias de segurança no nosso caminho para a integração". O chefe da Otan, por sua vez, disse que hoje a dupla se encontra "como iguais, mas espero o dia em que nos encontraremos como aliados".

— Tenho confiança de que, depois da guerra, Ucrânia estará na Otan. Faremos todo o possível para que isso ocorra — disse o mandatário ucraniano, que viajou para participar da reunião inaugural do conselho Otan-Ucrânia, mais um mecanismo de apoio ao país invadido pela Rússia.

Horas antes, Zelensky havia sido ovacionado por uma multidão em uma praça na cidade-sede do encontro, capital de outra antiga república soviética, que teme ser a próxima na mira de Putin. Ao lado do presidente da Lituânia, Gitanas Nauseda, ele afirmou "gloria à Ucrânia" e voltou a defender o ingresso de seu país na aliança:

— A Otan dará segurança à Ucrânia. A Ucrânia será mais forte na Otan — disse ele durante um discurso de 10 minutos, traduzido ao lituano.

As prioridades ucranianas para a cúpula, ele havia afirmado, são "novos pacotes de auxílio para o nosso Exército no campo de batalha", "um convite para a Otan, pois precisamos do entendimento de que teremos esse convite quando a situação de segurança permitir". Outro ponto, disse ele, é "discutir garantias de segurança para a Ucrânia no nosso caminho para a Otan".

Temores sobre adesão

O texto final do comunicado, contudo, foi considerado uma vitória de Biden, que na semana passada declarou que a Ucrânia ainda não estaria pronta para aderir à Otan, ressaltando que antes o país precisa cumprir algumas pré-condições, como mais salvaguardas democráticas. Além da ajuda militar, as promessas do G7 também devem englobar ajuda para avançar tais reformas.

Outra preocupação americana e de outros atores de peso, como a Alemanha, é que, no cenário atual, uma adesão imediata também equivaleria a pôr todo o bloco em guerra com a Rússia devido ao Artigo 5° do Tratado, que versa sobre as garantias de defesa territorial coletiva dos países-membros. Estar sob o guarda-chuva da cláusula é algo que Kiev considera fundamental para evitar novas agressões russas.

— Não vemos Estados-membros da Otan em guerra, morrendo, sofrendo, defendendo seu próprio país. Por isso entendemos que as melhores garantias para a Ucrânia são estar na Otan — disse Zelensky.

Por si só, o plano do G7 despertou reações negativas no Kremlin, que disse por meio de seu porta-voz, Dmitry Peskov, que os termos poriam em risco a segurança da Rússia. Em seus comentários diários à imprensa, ele disse que as garantias farão com que a Europa seja "muito mais perigosa durante anos e anos".

— Ao propor essas garantias de segurança à Ucrânia, esses países estarão atacando a segurança da Rússia — disse ele, que prometeu também "contramedidas" caso os ucranianos usem as controversas bombas fragmentárias cujo envio foi anunciado por Biden na semana passada, algo também dissensual entre os aliados.


Fonte: O GLOBO